Especial Setembro Amarelo: Ambientes que adoecem

Fotos: Alessandra Lori e Tiago Caldas | Ag. A TARDE
Estudar e trabalhar são atividades comuns e, até mesmo, necessárias para a manutenção da vida em sociedade. Porém, conviver em tais ambientes, pode ao invés de significar crescimento pessoal e profissional, provocar adoecimentos capazes de serem gatilhos para o suicídio. Nesta quarta e penúltima reportagem especial em comemoração ao Setembro Amarelo, o Portal A TARDE aborda a relação entre o suicídio em espaços profissionais e educacionais.

Algumas pesquisas ao redor do mundo demonstram que o ato de tirar a própria vida pode ser praticado com mais frequência por indivíduos que costumam desempenhar um determinado tipo de ofício. No Brasil, não é possível determinar com exatidão quantas das 12 mil mortes registradas no país estão atribuídas a situações vividas nos ambientes de trabalho ou de aprendizado, no entanto, levantamentos realizados por sindicatos e associações revelam que apesar de não ser quantificada, essa realidade está longe de ser inexistente.

Na Bahia, uma das formas de comprovar essa afirmação são os índices registrados pela Polícia Militar do estado. Alguns membros estão inclusos nos 3.324 casos de suicídio, registrados pela Secretaria de Estado da Saúde da Bahia (SESAB), entre 2010 e 2017, e 286, até setembro deste ano. Só nos últimos três anos, foram registrados 14 casos de suicídios entre colaboradores. Com cinco ocorrências até o momento desta publicação, 2018 apresentou um aumento em relação a 2017, que registrou cerca de quatro contecimentos. A média oficial é de 4,6 casos por ano.

Até setembro deste ano, cerca de 5 PMs tiraram a própria vida
Segundo o órgão, um estudo promovido pelo Departamento de Saúde da PMBA, apontou que as possíveis causas para o suicídio, se relacionam com problemas pessoais de naturezas familiar e financeira. No entanto, também se faz necessário compreender o contexto de trabalho aos quais os PM´s estão acometidos. Para a psiquiatra e membra da Associação Psiquiátrica da Bahia, Miriam Gorender, alguns fatores do próprio ofício ajudam a entender as estatísticas.

“Assim como os médicos, policiais e profissionais da segurança possuem um risco três vezes maior de cometer suicídio. Podemos notar que existem características semelhantes entre eles. Ambos tendem a ser um pouco perfeccionistas e narcísicos, além de passar por um alto nível de estresse, entrar em contato constante com o público durante situações de vida ou morte, lidar com excesso de carga horária, e claro, ter uma grande facilidade de acesso aos meios utilizados para consumar o ato”, pontua.

Procurado, o Conselho Regional de Medicina do Estado da Bahia (CREMEB) afirmou que não existe nenhum estudo do órgão sobre o assunto, pois não dispõe de informações sobre as causas das mortes de cada profissional médico.

Já em situações relacionadas a escolas e faculdades, uma pesquisa recente feita em todas as regiões do país pela Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), revelou que oito em cada dez estudantes de graduação já tiveram algum tipo de problema emocional como ansiedade, desânimo, insônia, desespero e sentimento de solidão.

No IFBA de Salvador, alunos ainda tentam superar suicídio de professor ocorrido no ano passado
Outras questões apresentadas foram desatenção, desorientação, confusão mental, tristeza permanente, além de timidez excessiva. Pelo menos 10% dos graduandos também já tiveram dificuldades alimentares, e sentiram medo ou pânico. Mais de 6% dos alunos relataram ter ideias de morte e cerca de 4% já tiveram pensamentos suicida.

“Não somos apenas corpo e mente. Ambientes com exigência excessiva, que fazem com que a pessoa se sinta impotente, sem saída ou controle sobre a quantidade de afazeres tendem a ir deixando uma marca, e com isso, facilita uma série de formas de adoecimento, o que se relaciona com taxas maiores de suicídio”, observa Miriam.

Dentre as principais causas para o adoecimento de alunos e trabalhadores estão o excesso de carga horária, e a naturalização de práticas abusivas como assédio moral, assédio sexual, para não perder o emprego ou ser aceito no local.

Alvo da luta pela melhora da saúde mental, segundo Miriam, o estresse não é um elemento completamente ruim. “A gente precisa ter realmente um nível de ansiedade e de estresse para produzir e aprender. Mas é preciso ficar de olho na intensidade e frequência. Se esforçar muito para fazer um determinado trabalho e não ter esse esforço reconhecido de forma recorrente pode ser sim um fator de adoecimento. Logo, é preciso observar como esse estresse acontece”, afirma.

O papel da Instituição

Segundo a PMBA, existem diversos trabalhos psicológicos voltados à prevenção de outros casos de suicídio. A principal é a Caravana Social, oficina de capacitação para o combate dos transtornos ocupacionais. Além da iniciativa, uma outra ação busca reduzir o nível de estresse dos colaboradores por meio de técnicas de respiração. Segundo o órgão, até o momento da publicação, cerca de 800 policiais foram capacitados. O último evento ocorreu na última sexta-feira, 14, e tinha como base formar outros 600.

Em Salvador, o Instituto Federal de Ciência, Educação e Tecnologia da Bahia (IFBA), também vêm buscando meios para lidar com o problema. Na mesma data em que se comemora o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio, dia 10 de setembro, no ano de 2017, a Instituição, de ensino médio-técnico e graduação ficou em choque com suicídio do professor de português, Deraldo Araújo. Além dele, uma estudante cometeu o ato em 2013, seguida por um ex-estudante algum tempo depois.

De acordo com o dirigente do IFBA, Albertino Nascimento, atualmente, o local conta com atendimento psicológico gratuito para os estudantes. “Temos dois psicólogos. O acesso pode ser feito tanto pela indicação dos professores e familiares, quanto por demanda própria”, explica. Segundo ele, os ex-alunos de Deraldo receberam um acompanhamento especial. Por iniciativa da turma, um evento com palestras para debater sobre questões da saúde mental foi realizado no campus.

Para Miriam, ajudar a evitar o suicídio é um papel que deve ser acolhido pelas Instituições. “Elas podem ajudar de diversas formas como: realizar corretamente a divulgação de informações corretas sobre o assunto, escutar os colaboradores e indivíduos, produzir um protocolo de abordagem para que os funcionários e alunos possam seguir, promover eventos que possam debater o assunto, e claro, identificar práticas abusivas”, finaliza.

Do Atarde
Especial Setembro Amarelo: Ambientes que adoecem Especial Setembro Amarelo: Ambientes que adoecem Reviewed by Portal Notícias de Alagoinhas on setembro 20, 2018 Rating: 5
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