O cantor e compositor baiano Caetano Veloso fez duras críticas ao presidente Jair Bolsonaro, em entrevista ao jornal britânico The Guardian, publicada hoje (29). Relembrando seu período de exílio em Londres, na Inglaterra, no final dos anos 60, durante o regime militar, o artista chamou Bolsonaro de "confuso e incompetente".

"Ter um governo militar é horrível e Bolsonaro é tão confuso e incompetente. O governo dele não fez nada. O que o Executivo brasileiro fez desde que ele se tornou presidente? Nada...", afirmou. "O que vimos até agora tem sido mais sobre destruição. Tudo que tem sido feito na Amazônia é para encorajar o desmatamento, tudo que tem sido feito na esfera cultural é pelo desmantelamento... Museus, grupos de teatro, produtores de música e cinema", acrescentou.

A postura negacionista de Bolsonaro em relação à pandemia do coronavírus também foi alvo de críticas por parte de Caetano. Para o artista, o presidente propõe "soluções fáceis e suspeitas para problemas complexos". "É bestial, e o presidente mantém a posição dele, embora ele mesmo tenha sido infectado. Ele nem mesmo fez como [o primeiro-ministro britânico] Boris Johnson, que mudou de método após ser infectado", disse.

Caetano também falou sobre a apropriação dos símbolos nacionais por parte dos apoiadores do presidente, de maneira similar ao que ocorreu durante a ditadura militar. Ele recordou um episódio ocorrido durante a Copa do Mundo de 1970, quando ele e Gilberto Gil, também exilado em Londres, decoraram a casa com bandeiras do Brasil para celebrar a vitória da Seleção Brasileira. Amigos que visitaram os dois artistas ficaram consternados, porque "parecia que eles estavam apoiando a ditadura".

"Eu até diria 'Não, a ditadura não é o Brasil!'. Mas é claro que sabíamos que a ditadura era um sintoma do Brasil, uma expressão do Brasil, e isso era o que o Brasil estava sendo naquele momento, assim como está sendo hoje um monte de coisas que não são fáceis para a gente engolir", disse. "Você não pode dizer que Bolsonaro não é o Brasil. Ele é parecido com muitos brasileiros que eu conheço. Ele é muito parecido com o brasileiro médio: de fato, a permanência dele e de seus aliados no poder depende da ênfase nessa identificação com o brasileiro 'normal'", acrescentou.

Mesmo com as críticas, o músico disse que se mantém otimista quanto ao futuro do Brasil e confia no "enorme potencial" do país. "Nossa floresta, nossas músicas, nossas peças e filmes estão sendo ameaçadas por esse governo, e estão sob um processo de destruição. Mas, como um dos membros desse grupo que produz música popular, eu asseguro que estamos aqui. O Brasil está aqui", pontuou.

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